Sua Majestade, o pastel de nata
O clássico português que domina as manhãs de Lisboa: pastel de nata, café cheio e tradição conventual
É tiro e queda, não tem para ninguém — nem para o croquete ou o bolinho de bacalhau —, o queridinho em 100% das pastelarias de Lisboa é o pastel de nata. Redondinho e dourado, a nata, como é carinhosamente chamado, ao lado do café cheio (equivalente ao nosso expresso, só que servido até a xícara transbordar) é o básico do café da manhã lisboeta.
Em qualquer pastelaria, no início da manhã, entra alguém afobado, deseja “bons dias”, assim, mesmo, no plural, e, praticamente no mesmo fôlego, vai pedindo uma nata e um cheio. É a senha para a senhorinha enxugar as mãos no avental, pinçar o reluzente pastel da vitrine e servi-lo junto ao café a mil graus Celsius.
Por regra, o lisboeta não faz o desjejum em casa, sua cozinha é a pastelaria mais próxima de casa ou do trabalho, onde a nutrição vem do pastel de nata e a disposição para dar o pontapé inicial no serviço é turbinada pela cafeína. Depois, o tuga tem energia para dar a volta no Cabo da Boa Esperança ou escrever os oito mil versos d’Os Lusíadas.
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Mas, atenção, quem é do time do pastel de nata não tolera que o confundam com o pastel de Belém, uma espécie de primo rico de nariz empinado lá das bandas do bairro do Restelo, ao pé do Mosteiro dos Jerônimos e do Padrão dos Descobrimentos. Entrar numa pastelaria “raiz” pedindo um pastel de Belém é pedir para ouvir o que não quer.
Outro pecado é usar uma colher de chá e comer apenas a parte cremosa no meio do pastel, descartando a forma redonda e crocante, um desaforo só equiparável a cortar o espaguete com a faca para os italianos. Em Lisboa, a nata dispensa os talheres, é saboreada à dentada, espalhando os farelos pela roupa e, se depois de tudo, ficar um bigodinho de recheio, melhor ainda.
Afinal, é um velho conhecido, um parente antigo, inventado séculos atrás provavelmente por uma freira, quando os mosteiros regiam os dias na sociedade portuguesa. Faz parte da chamada gastronomia conventual (de convento), facilmente reconhecida pelos doces de coloração amarelada, provenientes da gema de ovos na receita.
Reza a lenda que as freiras utilizavam as claras dos ovos como goma para passar as batinas dos padres, frades e bispos, deixando-as sem um mísero vinco, armadas como o uniforme do Batman. Mas, depois, era preciso dar destino às gemas, aproveitadas como matéria-prima no preparo de uma infinidade de quitutes. Os mosteiros e conventos fecharam as portas quando os republicanos chegaram ao poder, destronando os reis, mas o pastel de nata nunca perdeu a majestade e resistiu ao tempo como a joia da coroa das pastelarias de Lisboa.
Essa crônica foi publicada originalmente na revista EntreRios.
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