Por que Portugal virou referência mundial do surf e das ondas gigantes
Costa de 900 quilômetros, ondas consistentes e campeonatos internacionais atraem praticantes de todos os níveis do surf em Portugal
Com ondas gigantes, atletas competitivos e uma costa que atrai surfista do mundo inteiro, Portugal se tornou um grande centro de surf. Em lugares como Peniche, Ericeira e Nazaré, convivem veteranos que enfrentam desafios extraordinários e jovens talentos em ascensão. “É onde encontro a minha paz. É meu santuário, onde eu medito”, define Joana Andrade, a primeira e única portuguesa a surfar as ondas gigantes de Nazaré, muito conhecidas no Brasil devido à bravura de outra heroína do esporte, Maya Gabeira.
O surf estreou nos Jogos Olímpicos de 2020, em Tóquio, no Japão, que acabou ocorrendo em 2021 devido à pandemia. Portugal marcou presença desde o início, com três surfistas classificados para a disputa no Japão, e voltou a competir em Paris 2024, com dois atletas. Com essa performance e por ter praias que permitem a prática do surf o ano inteiro, é natural que seja forte na modalidade. A inclusão do esporte nas Olimpíadas, segundo Francisco Simões Rodrigues, presidente da Associação Nacional de Surfistas (ANS), trouxe legitimidade e visibilidade mundial.
“Com a dimensão e a nossa força, acho que muitas coisas boas vão continuar a acontecer, incluindo o interesse popular”, afirma.
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Hoje, o país conta com 2.543 atletas federados, 633 treinadores e 341 escolas de surf, segundo a Federação Portuguesa de Surf. Um estudo de 2014 aponta que o esporte gera entre 300 e 400 milhões de euros anuais. Rodrigues estima que esse número tenha crescido, inclusive pela chegada de brasileiros.
“Temos 900 quilômetros de costa com ondas consistentes, campeonatos internacionais e atletas de renome. Isso cria uma cadeia de valor que vai do iniciante ao campeão mundial, passando por instrutores, escolas, alojamento local, marcas emídia”, explica.
De fato, o cenário melhorou batante. Quando Joana começou a deslizar pelas ondas, aos 13 anos, era bem diferente. Hoje, aos 45 anos, ela lembra que o surf era visto por muitos como “um desporto de marginais”.
Desanimador, mas ela persistiu. “Só para ficar em pé na prancha, demorei quase cinco meses. Mas o fato de estar dentro d’água parecia acalmar a minha mente”, conta. Depois de ganhar experiência, a aptidão para ondas grandes se tornou evidente, e a transição para a praia de Nazaré exigiu um ano de treinamento intenso.
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No alto daquela montanha de água, “não há espaço para errar; a pessoa tem que estar completamente concentrada”, diz ela. Foi chamada de maluca devido à sua pretensão, e um dos motivos era medir apenas 1,54 metro de altura. Era necessária uma boa dose de coragem para enfrentar ondas que podem chegar a 30 metros. “Eu ouvia que era muito pequenininha. Já tive que ir ao mar com coletes de criança”, relembra.
E há também o preconceito de gênero. “Diziam: ‘Cuidado, meninas, o mar hoje está grande, não está para vocês’. Mas aprendi que, naquelas ondas gigantescas, não há masculino ou feminino. Há um ser humano enfrentando a extrema força da natureza”, reflete. Hoje, a atleta considera que as mulheres estão mais profissionais e que esta é a “nossa era” no esporte.
A parceira de Joana no enfrentamento de mares desafiadores é a brasileira Michaela Fregonese
Atualmente, ela ensina a técnica do esporte na Progress Surf School, em Ericeira, que exibe o status de primeira Reserva Mundial de Surf da Europa, e onde escolheu viver. A cidade costeira está a cerca de 50 quilômetros de Lisboa e atrai esportistas de vários países.
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Um deles é Vinícius Osório Costa, nascido em Florianópolis e radicado em Portugal desde 2017, quando decidiu unir a paixão pelo surf à vida profissional. Hoje, é encarregado da escola Surf with Pepe, em Ericeira, que “no verão fica cheia, especialmente de iniciantes no esporte, assim como Sagres e Peniche”.
Nazaré, ao contrário, recebe um alto número de turistas no inverno, quando as ondas ficam maiores. “A diversidade da costa portuguesa oferece boas condições o ano inteiro”, garante.

Diversidade é mesmo um trunfo do litoral. Rodrigues, o presidente da ANS, destaca a cultura de praia, que se solidificou nas últimas décadas, e a variedade de estilos de ondas que hoje é valorizada pelos adeptos do esporte. Halley Batista, brasileiro que mora no país há uma década, elogia a constância das ondas:
“Em qualquer época do ano, a probabilidade de praticar surf é alta e atende a todos os níveis de surfistas”.
Ele já viveu e surfou em diversos países, mas foi em Portugal que diz ter encontrado a melhor qualidade de vida, segurança e, claro, as incríveis ondulações marítimas.

A jovem Maria Salgado, de 18 anos, concorda. Ela afirma que as condições são “superboas de norte a sul”, e esse é um dos fatores que tornaram o país tão relevante no cenário do surf. Já Francisca Veselko, a Kika, de 22 anos, simboliza essa nova geração de talentos. Campeã mundial júnior em 2023 e atual líder do ranking de acesso à elite internacional, ela nasceu na Califórnia e cresceu em Carcavelos.
“Sempre que entro na água com essa bandeira no peito, sinto que estou representando muito mais do que a mim mesma. É uma responsabilidade boa, que me motiva”.
Com os olhos no futuro, Kika sonha com a qualificação para o Championship Tour (CT) e os Jogos Olímpicos de 2028. Ela quer deixar um legado para o surf feminino em Portugal.

Um dos atletas que conseguiu esse feito foi Frederico Morais — cujo apelido é similar ao de Francisca, “Kikas” —, que nasceu em Cascais, começou a surfar ainda criança e construiu uma carreira sólida até alcançar o topo. Segundo ele, o cenário melhorou radicalmente.
“Lembro-me de ser pequeno e de não termos referências nacionais no World Tour. Hoje, há uma geração inteira de surfistas competindo em nível internacional”.
Morais se orgulha de ver Portugal no mapa global do surf e acredita que o intercâmbio com os atletas brasileiros elevou o status local. “O Brasil tem um nível técnico altíssimo e uma mentalidade competitiva forte. Contar com atletas brasileiros traz uma dinâmica boa, aumenta a qualidade dos treinos, das provas, e cria um intercâmbio que só valoriza o esporte em nosso país”, afirma.
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Amigo próximo de Gabriel Medina, ele assinala o respeito mútuo e a inspiração que esses profissionais trazem. Além da performance, o surf é, para ele, uma ferramenta de transformação. “Se queremos continuar a ter ondas perfeitas, praias limpas e ecossistemas saudáveis, precisamos começar a dar o exemplo. Cuidar do meio ambiente também faz parte do meu percurso como surfista”.
Lucas Chianca, o “Chumbo”, é um dos maiores nomes do surf de ondas gigantes no mundo. Aos 30 anos, o brasileiro foi quatro vezes vencedor do Nazaré Tow Challenge.
“Essa praia é minha segunda casa, o lugar que me colocou no
mapa e apresentou o Chumbo para o mundo”, disse à EntreRios. Ele bateu o recorde, mês passado, na chamada Nazaré brasileira: surfou uma onda de 14,82 metros, na Laje da Jagua, em Jaguaruna (SC). “Foi o maior marco da minha vida no Brasil”, comemora.

Em Portugal, já foi bem mais alto. No desafio Gigantes de Nazaré, em 2024, Chumbo surfou uma onda avaliada em 27,51 metros. A medição precisa ser confirmada pelo processo oficial de homologação – e, se ratificada, ele se tornará o novo recordista mundial da maior onda já surfada. Ele agradece e se declara para o país luso. “Eu sou apaixonado por Portugal e cada vitória que tenho, é metade brasileira e metade portuguesa”.
Maya Gabeira, referência mundial

A atleta Maya Gabeira, filha do escritor e jornalista Fernando Gabeira, estabeleceu em 2018 o primeiro recorde mundial feminino de maior onda surfada, com 20,7 metros. Em 2020, superou a própria marca, desafiando uma onda de 22,4 metros, reconhecida pelo livro de recordes Guinness. O feito consolidou Maya como referência
mundial no surf de ondas gigantes.
O documentário Maya and the wave acompanha sua incrível trajetória. Nos últimos anos, passou a se dedicar também à defesa dos oceanos, tornou-se embaixadora da ONU para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e para o Oceano e a Juventude. Em janeiro, a campeã anunciou sua aposentadoria do surf profissional.
As melhores praias para surfar, onde ocorre a Liga MEO Surf
Praia do Cabedelo – Figueira da Foz
Urbana, com fácil acesso, boas ondas e infraestrutura completa.
Praia de Matosinhos – Porto
Ondas consistentes durante todo o ano e clima vibrante, fica próxima ao centro da cidade.
Ribeira d’Ilhas – Ericeira
Ondas longas e constantes. Ótima infraestrutura.
Areal de Santa Bárbara – RibeiraGrande (Açores)
Uma das praias mais extensas da ilha, com cerca de 1 km. Boas ondas e infraestrutura.
Supertubos – Peniche
Conhecida como “Pipeline Europeu” pelas ondas tubulares. Recebe a etapa final da Liga MEO Surf e eventos da World Surf League.
Praia do Norte — Nazaré, que não faz parte da Liga MEO Surf
É famosa pelas ondas gigantescas que se formam entre outubro e março. É palco do Nazaré Big Wave Challenge.
Próximas competições
11/25 a 3/26
Big Wave Challenge
Nazaré
15/25 a 3/26
WSL Championship Tour
Peniche
Essa reportagem foi publicada originalmente na revista EntreRios.
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