Susana Vieira: “Quem foi que disse que, com 80 anos, não podemos mais ter desejos? Quero beijar e ser feliz”
Em bate-papo exclusivo com a EntreRios, Susana Vieira fala sobre carreira, maturidade e autocuidado
Susana Vieira, de 83 anos, já enfrentou tempestades, mas nunca perdeu, sequer diminuiu, a paixão pela vida — especialmente pelas vivências que ainda estão por vir. Entre risos, histórias e confissões, humor e arroubos – marcas da atriz —, ela nos lembra que a vida gosta de quem gosta dela.
Esse impulso levou a atriz a lotar teatros no Brasil e em Portugal com o monólogo Lady, que cruza lembranças pessoais com personagens de William Shakespeare.
Escrito por Vana Medeiros e dirigido por Leona Cavalli, a peça costura verdades que não pedem licença para nos confrontar e perguntas que só o tempo pode responder, enquanto fala de desejo, liberdade, dores e aplausos que curam.
Enquanto a peça não retorna ao país, EntreRios conversou com Susana sobre carreira, maturidade e autocuidado.
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Como nasceu a ideia de fazer essa peça?
Queríamos, o produtor Edgard Jordão e eu, montar algo de Shakespeare. Também tínhamos interesse em falar sobre alguns temas atuais, como o etarismo e o que fazer com os nossos desejos aos 80 anos. Juntamos tudo e nasceu Lady. É como se o público estivesse nos bastidores, vendo como uma atriz se prepara para entrar em cena e, ao mesmo tempo, vivendo com ela os conflitos do dia a dia: os amores, as decepções e as alegrias.
Monólogo é um desafio maior?
A vida é um desafio constante. Eu tenho 83 anos, e estar em cena, fazendo Shakespeare e ao mesmo tempo contando coisas muito pessoais, é um desafio enorme. Mas o público tem recebido a peça com tanto amor que nunca me sinto sozinha em cena. Tenho uma equipe junto comigo e os espectadores durante toda a peça. É desafiador, mas tem sido uma experiência incrível.
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Qual foi o momento mais marcante da sua trajetória artística?
Tenho muitos. Amei fazer A sucessora, Senhora do destino, a Branca Letícia de Barros Mota em Por amor. São trabalhos que me marcaram muito.
Como você equilibra sua vida pessoal com a rotina de gravações e compromissos?
Hoje consigo me equilibrar bem. Preciso descansar, então o meu sono é sagrado. Ao mesmo tempo, trabalho com pessoas que me ajudam em tudo, já sabem como eu funciono, e vamos equilibrando.

Você sempre demonstrou ser uma mulher muito forte e decidida. De onde vem essa força e confiança?
Quem assistir à peça vai conhecer outra Susana. Tenho meus medos, minhas fragilidades, mas a forma como lidamos com isso é o mais importante. É daí que nasce essa mulher forte, que luta por tudo, essa leoa. Meu instinto de sobrevivência é muito potente. Nunca dependi de ninguém, consegui tudo com muito trabalho e dedicação.
Tem alguma superstição ou ritual que você segue antes de entrar em cena?
Eu chego muito cedo ao teatro, e essa é a única coisa da qual preciso: ficar um tempo no camarim, depois ir ao palco para fazer a passagem de som. É um tempo para lembrar de algumas coisas que podemos melhorar ou ajustar. Antes de começar a atuar, penso nos meus pais e peço ajuda para não me abandonarem em cena (risos).
“Quem foi que disse que, com 80 anos, não podemos mais ter desejos? Eu tenho os meus desejos e ninguém vai me reprimir, me dizer o que fazer. Quero beijar e ser feliz”.
Existe algo que você ainda sonha em realizar, mesmo depois de tantos sucessos?
O que eu quero é trabalhar, desfilar no carnaval, viver. A vida gosta de quem gosta dela. Essa é uma frase da peça.
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Qual personagem que você interpretou mais se parece com a Susana da vida real?
Maria do Carmo (Senhora do destino, 2004, TV Globo). Mãe e mulher forte, que sempre trabalhou pela família, pelos filhos.
Se você pudesse dar um conselho para a Susana jovem, qual seria?
O meu conselho seria esse: faça de verdade. Se não der certo, você tentou. Fiz tudo o que eu quis e como era possível fazer naqueles momentos.
Você começou sua carreira nos anos 1960 e se mantém com sucesso. Qual é o segredo para se reinventar e continuar conquistando o público?
Estar na ativa. A internet e os memes me aproximaram de uma geração que não acompanhou as novelas e, hoje, no teatro, recebo pessoas de todas as idades. Fico feliz com isso.
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Você já recusou algum papel que depois tenha se arrependido? Ou algum que quase não aceitou, mas acabou sendo um sucesso?
Não. Mas, em Senhora do destino, eu estava escalada para viver a (vilã) Nazaré Tedesco. Aí o Wolf (Maia, diretor) sugeriu me colocar no papel da (mocinha) Maria do Carmo, e a maravilhosa Renata Sorrah fez a Nazaré brilhantemente.
O teatro, a televisão e o cinema oferecem experiências bem diferentes para o ator. Qual dessas linguagens te desafia ou realiza mais?
As três, porque elas se completam. Quando estou fazendo novela e peça ao mesmo tempo, chego ao teatro muito melhor. O inverso também acontece. O exercício me fortalece.

Qual foi a maior lição que a vida lhe ensinou?
A viver sem depender de ninguém. Ir atrás dos objetivos. Eu digo sim para a vida.
O grande público a vê como uma mulher intensa. Você também se define assim?
Eu sou intensa, em tudo. Não consigo ser diferente, e tenho as dores e as delícias de ser assim.
Qual sua rotina de bem-estar? Cuida da pele, faz atividade física?
Posso chegar cansada, a hora que for, que preciso tirar a maquiagem. Nunca durmo maquiada. Durmo bem, respeito os meus limites — embora, às vezes, esqueça (risos). Eu fazia treino na academia, mas este ano estou devagar.
Você está apaixonada? Está ou procura uma relação amorosa?
A peça fala sobre isso. Não estou apaixonada, mas estou de olho (gargalha). Quero beijar e ser feliz! Estamos em 2025 e ainda existem muitos tabus em torno do prazer feminino.
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Com sua trajetória e maturidade, como você analisa esses assuntos?
Concordo com você, precisamos falar sobre isso. Mas tenho o meu jeito de abordar esse tema. Não gosto de nada vulgar, apelativo. Preciso estar confortável para conversar sobre aquilo.
Que recado você daria para as mulheres da sua geração sobre a libido feminina?
O meu recado é: vão assistir à peça (risos). Mas quem foi que disse que, com 80 anos, não podemos mais ter desejos? A minha pergunta é: “Quem foi que disse que precisamos reprimir tudo depois de uma certa idade?” Eu tenho os meus
desejos e ninguém vai me reprimir, me dizer o que fazer.
Que músicas você tem ouvido?
Ouço muita MPB: Zizi Possi, Rita Lee, Renato Russo…
O que você mais gosta em Portugal?
Tudo! Amo Portugal. A última vez em que estive nessa terra foi tão incrível!
Esta reportagem é parte da quarta edição da revista EntreRios. Você pode assinar a publicação e recebê-la no conforto da sua casa.
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