Tabelinha entre xenofobia e incoerência
Críticas de treinadores brasileiros a um técnico estrangeiro ignoram a própria trajetória da categoria e contrastam com o cenário do futebol global
Campeão mundial com a Seleção Brasileira em 1970, tendo ainda participado em outras três Copas, Emerson Leão trabalhou em três oportunidades no Japão (Shimizu S-Pulse, Verdy Tokyo e Vissel Kobe) e uma no Qatar (Al-Sadd).
Campeão do Mundial de Clubes de 2000 com o Corinthians, Oswaldo de Oliveira também passou pelo futebol japonês (Kashima Antlers e Urawa Reds) e qatari (Al-Arabi SC).
Mesmo com vasta experiência na Ásia e Oriente Médio, os dois veteranos treinadores, hoje “afastados” do mundo da bola, acharam por bem atacar um colega italiano em exercício no Brasil. “Eu sempre disse que não gosto de estrangeiros ocupando esse lugar no futebol do meu país. Não mudo a minha opinião”, esbravejou Leão, de 76 anos.
“Eu não queria treinador de outra nacionalidade, mas não tinha jeito. Depois que ele for embora campeão do mundo, que venha um brasileiro”, vociferou Oswaldo, de 74.
O companheiro de profissão em questão era nada mais, nada menos, que o multicampeão internacional Carlo Ancelotti, hoje na seleção do Brasil. Constrangido e/ou perplexo, o italiano ouviu calado as barbaridades da dupla.
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Todos, incluindo outras referências nacionais, como Fernando Diniz, estavam presentes no 2º Fórum Brasileiro dos Treinadores de Futebol, no Rio de Janeiro, na sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Ou seja, na própria casa de Ancelotti.
Juntos, acompanharam um verdadeiro espetáculo de horrores dividido em três camadas. Começou com a falta de educação, passou pela incoerência e, não menos importante, escalou para a xenofobia.
Dois brasileiros com passagens por clubes do exterior são contra treinadores estrangeiros no Brasil. O cúmulo da estupidez. Isso talvez ajude a explicar o porquê de um português ser atualmente o melhor e mais vitorioso técnico no futebol brasileiro: Abel Ferreira, no Palmeiras.
Em Portugal, aliás, o treinador da seleção é um espanhol: Roberto Martínez. Apesar da histórica rivalidade ibérica, que vai muito, muito além da bola, nunca houve qualquer discussão envolvendo nacionalidade.
Desde que chegou, em 2023, Martínez sempre foi criticado pelo bom ou mau futebol praticado em campo. Pela comunicação. Vez ou outra, também pela gestão de Cristiano Ronaldo. Porém, nunca por ter nascido no país vizinho. Nunca.
O atual técnico da seleção da Inglaterra é alemão: Thomas Tuchel. Um argentino dirige a seleção do Uruguai: Marcelo Bielsa. A mesma seleção de Portugal, vale lembrar, já foi comandada por um dos nossos: Felipão.
É revoltante que o discurso de preconceito esteja tão presente no Brasil, sobretudo numa classe que muitas vezes colhe os frutos do sucesso além das fronteiras. É de envergonhar todo e qualquer brasileiro.
Essa coluna foi publicada originalmente na revista EntreRios.
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