Vale Tudo: quem matará Odete Roitman?
Remake de Vale Tudo supera 100 milhões de views, retrata novos dilemas éticos e uma Odete ainda mais venenosa
Odete Roitman, a mais icônica vilã da teledramaturgia brasileira voltou 37 anos depois. A personagem domina a cena da nova edição da novela Vale Tudo, que estreou no Brasil dia 31 de março e, no fim de maio, em Portugal.
Um dos maiores sucessos de folhetins em língua portuguesa traz à tona os questionamentos sociais, comportamentais e de ética política, acrescidos agora de inclusão de raça.
O remake foi o maior sucesso digital da Globo. Apenas no primeiro mês foram mais de 100 milhões de visualizações no Instagram.
É o conteúdo mais visto no Globoplay em todos os aspectos, tanto no VOD (video on demand) quanto na transmissão ao vivo.
Vale Tudo confirma que o público das telenovelas migrou para as redes sociais, onde elas batem recordes impressionantes. No X, antigo Twitter, um canal eminentemente jornalístico, a novela ficou 250 horas entre os assuntos mais comentados apenas no primeiro mês de exibição.
As grandes questões do folhetim continuam sendo se vale a pena ser honesto e quem vai matar Odete Roitman. Autora da nova versão da TV Globo, Manuela Dias — que trabalha sobre a trama original de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères — já avisou que o assassino será diferente da versão anterior.
Ou seja, o mistério que parou o Brasil em 1988 sobre o assassinato da imortalizada megera, interpretada na época por Beatriz Segall, vai continuar até o fim da novela. Sobre a honestidade, o público decide.
Os números de audiência da TV são bons, mas demonstram que a plataforma para assistir novelas migrou para a internet. No Rio de Janeiro, a trama marca médias entre 28 e 30 pontos. Em São Paulo, de 22 a 24 pontos.
Segundo fontes ligadas à emissora, esse resultado é esperado e a tendência é aumentar com o “esquentamento” do folhetim, que fica no ar até outubro no Brasil.

Por exemplo, o embate entre mãe e filha — agora, com Taís Araújo e Bella Campos nos papéis centrais de genitora boa e filha má — cresce e explode no conflito familiar vivido anteriormente por Regina Duarte e Glória Pires.
Raquel é uma mulher alto astral e batalhadora, que acredita cegamente em vencer na vida trilhando o caminho da honestidade. É o contrário do que pensa a ambiciosa filha única, Maria de Fátima, uma golpista.
Um dos pontos que têm levantado polêmica no Brasil é o fato de Odete Roitman, elitista ao extremo, aceitar uma nora negra como Maria de Fátima (Bella Campos).
Sim, os tempos mudaram muito. Se em 1988 a trama tinha apenas dois atores negros, hoje tem 15 artistas pretos — e alguns em papéis de poder. Odete vai se aliar à nora de cor, porém, amoral como ela.
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Vale Tudo inclui mais uma personagem feminina com perfil para elevar os pontos de audiência: a alcoólatra Heleninha, defendida por Paolla Oliveira agora, antes por Renata Sorrah.
A personagem — que aparece cada vez mais bêbada e inconsequente — levantou questões importantes e até hoje atuais, como a dificuldade das famílias em lidar com um membro dependente químico e a força de grupos como Alcoólicos Anônimos para ajudar.
Renata, a primeira Heleninha, recebeu com felicidade o fato de a polêmica figura estar “em boas mãos” e disse, antes da estreia da novela, esperar que o público não fizesse comparações.
“A Paolla é maravilhosa, eu amei quando me disseram que ela ia fazer a Heleninha. Não tem que comparar”.
Para os brasileiros e portugueses que assistem à trama, entretanto, não será possível atender ao pedido de Renata.

Comparar as as duas versões da novela é esporte nacional no Brasil, e periga ser repetido em Portugal. Ou mesmo por quem mora em outros países, como o guia turístico paranaense James Cimino, 48 anos, radicado em Londres há 5 anos, e acompanha pelo Globoplay.
“Estou adorando”, diz. E opina: “Gosto dos atores e acho que quem mataria Odete Roitman, agora, seria o cunhado Ivan (Renato Góes) ou talvez a irmã Celina (Malu Galli)”, arrisca Cimino.
Para ele, as novelas sempre foram veículos importantes de discussões culturais e políticas.
“A personagem de quem mais gosto é a Raquel. Ela se parece muito com a minha mãe e com as mães daquela geração, pois o pobre ser desonesto era algo inaceitável”, analisa.
Ele tinha 12 anos quando assistiu a Vale Tudo e começou a vender docinhos para ajudar na renda em casa — como faz Raquel para pagar boletos. Qualquer semelhança não é mera coincidência.
“Nós estamos em um outro momento, passados 37 anos. Eu acho que o Brasil mudou e o mundo mudou, mas a personagem continua muito atual, infelizmente. Ela é extremamente conservadora, hipócrita, preconceituosa, e a novela fala de um assunto importante que é a ética. É uma questão que a gente tem que estar sempre revisitando”.
Já a publicitária Camila Fernandes, 30 anos, assiste ao folhetim pela primeira vez, e o que mais chama sua atenção é a forma cotidiana e simples como a trama é contada.
“Eu adoro Vale Tudo porque é uma novela que não tem nada mirabolante. Eu mesma me vejo pensando o que eu faria em algumas situações. A novela coloca à prova o tempo todo a nossa ética e os nossos valores como seres humanos”, diz a jovem, que nasceu em Fortaleza, vive em Lisboa e segue a história pela plataforma de streaming da emissora.
Sobre a morte de Odete Roitman, resume: “Penso que qualquer pessoa pode matar essa mulher”. Afinal, vilã boa é aquela que provoca ódio de todos. Certo?
Errado. Débora Bloch tem arrebanhado fãs pelas tiradas hostis e muitas vezes preconceituosas de Odete Roitman.
“A vingança é uma das sete maravilhas”, prega ela. “Nunca sirva algo para uma visita em bandeja, você é a dona da casa, não o garçom”, ensina no auge da arrogância.
Ela é uma empresária que ‘veio de baixo’, lutou muito e, milionária, quer controlar tudo ao redor, incluindo os filhos.
Débora diz que essa escalação foi um presente. “Odete é terrível, cheia de camadas, e para mim é um texto muito bom de dizer. É divertido. Tem sarcasmo, ironia, humor”, afirma a atriz.
Ela lamenta existir ainda muita gente com esse comportamento: “Nós estamos em um outro momento, passados 37 anos. Eu acho que o Brasil mudou e o mundo mudou, mas a personagem continua muito atual, infelizmente. Ela é extremamente conservadora, hipócrita, preconceituosa, e a novela fala de um assunto importante que é a ética. É uma questão que a gente tem que estar sempre revisitando”.

A atriz Alice Wegmann encarna a Solange, papel de Lídia Brondi na primeira versão, uma garota workaholic moderna, bonita, empoderada e portadora de diabetes.
Alice desmistifica a doença ao mostrar que é possível viver uma vida normal e extremamente produtiva. Ela aparece em cena se aplicando insulina com a caneta de injeção enquanto conversa amorosamente com o namorado.
“Eu não tenho vontade de me comparar ou de ser melhor, mas de honrar o desempenho da Lídia (Brondi). Uma nova Solange com um perfuminho do que ela fez, e que brilhe”, diz.
A fórmula brasileira de telenovelas, admirada e reproduzida em muitas culturas, inclusive em Portugal, acaba de virar o primeiro curso de pós-graduação de escrita de novelas, on-line, certificado pelo Ministério da Educação do Brasil, o MEC.
O curso, na Uni-Facha, no Rio de Janeiro, foi idealizado por Vinícius Dias, roteirista carioca que vive entre Lisboa e Rio de Janeiro.

Ele destaca uma diferença contemporânea: a consolidação da internet, dos smartphones, acelerou o consumo das narrativas.
“Hoje, se o algoritmo oferece um vídeo de três minutos, achamos longo. O que isso tem a ver com a escrita? Tudo. Para capturar o público, os autores precisam escrever cenas cada vez mais curtas para dar dinamismo ao capítulo. É uma questão de ritmo. O nível de “dopamina” nas narrativas também aumentou. É um desafio extra para os autores”.
A jornalista e pesquisadora da PUC-Rio Ana Paula Gonçalves fez um estudo, que virou tese e livro sobre a novela, chamado “O Brasil mostra a sua cara: Vale Tudo, a telenovela que escancarou a elite e a corrupção brasileira”.
Ana diz sentir falta de um marco temporal no remake: “O que fez Vale Tudo ser tão bacana é que o que estava no jornal estava lá, sendo criticado, falado. Então, acho que talvez esteja faltando isso”.

Vale Tudo é um clássico da dramaturgia brasileira. Discute a corrupção institucional e a que é praticada cotidianamente em forma de “jeitinho”, a falta de ética dos poderes constituídos e a do cidadão comum.
Como disse Leonardo Lazzarotto, CEO da Tailor Media, Inteligência de Mídia, “o remake de Vale Tudo é uma releitura crítica de um Brasil que, embora mais digital, permanece profundamente humano e, muitas vezes, contraditório”.
A novela atualizou os temas e os desdobramentos da falta de caráter que, hoje, aparecem em fake news, cancelamentos, assédios. Em Portugal, o folhetim pode ser acompanhado pelo Globoplay ou pela Globo Portugal.
Quem é/Quem era
Outros personagens da nova e antiga versão de Vale Tudo










Colaborou: Eliane Lobato e Renata Telles
Esta reportagem é parte da primeira edição da revista EntreRios, distribuída nas principais bancas de Portugal. Você também pode assinar e receber a publicação no conforto da sua casa, além de ler a publicação completa.
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