Cultura

Verão de São Martinho: entenda o fenômeno e a tradição do magusto

Entre lendas medievais, castanhas assadas e copos de vinho novo, o verão de São Martinho explica por que novembro tem sabor de tradição e sol

Festival Magusto tradicional na Praça Brandão de Vasconcelos de 2023, em Arouca. Crédito: Câmara Municipal de Arouca.

Em Portugal, o final de outubro já anuncia os primeiros sinais de um clima mais ameno e as pessoas começam a se preparar para os meses gelados. Entretanto, nos primeiros dias de novembro, o frio recua, as nuvens se dissipam e o sol, quase esquecido, retorna em pleno esplendor. É o chamado verão de São Martinho, um fenômeno meteorológico e cultural que, todos os anos, traz aos portugueses alguns dias de calor em pleno outono — e um pretexto para acender fogueiras, assar castanhas e celebrar a tradição.

A ciência explica o fenômeno como um “intervalo de flutuação meteorológica” entre duas estações: o outono e o inverno. Primeiro vem o verão, depois o equinócio de outono e por último a Terra se prepara para o inverno.

Nesse período de transição, há a união do anticiclone subtropical do Atlântico Norte (o dos Açores) com o anticiclone da Sibéria, o que provoca condições meteorológicas bastante variáveis, conforme o site Tempo.pt.

Assim, nos primeiros dez dias de novembro, costuma haver um abrandamento do clima e até uma inversão do fluxo zonal (de oeste) em altitude.

Essa inversão enfraquece — ou até bloqueia — a Frente Polar sobre o sul da Europa, fazendo com que as temperaturas se elevem, atingindo valores acima da média para a época do ano. Esse fenômeno coincide com a comemoração do Dia de São Martinho, em 11 de novembro.

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A lenda que atravessou séculos

Procissão de São Martinho em Penafiel, que ocorre todos os anos no dia 11 de novembro. Crédito: Museu Municipal de Penafiel.

Por trás do fenômeno natural, há uma história lendária que remonta ao Império Romano. Martinho, um soldado romano nascido no atual território da Hungria, regressava à Itália quando, sob forte chuva, encontrou um sem-abrigo tremendo de frio.

Sem ter o que oferecer, rasgou ao meio seu manto vermelho e cobriu o homem. No mesmo instante, as nuvens se abriram e o sol brilhou. Por três dias, Deus teria suspendido o outono, num gesto divino em homenagem à caridade do soldado.

Martinho de Tours, que mais tarde se tornaria bispo e santo, morreu em 11 de novembro, data em que se celebra o Dia de São Martinho e, por tradição, o regresso simbólico do calor.

Castanhas, vinho novo e magusto: a festa do fogo e da amizade

Em Portugal, o Dia de São Martinho é sinônimo de mesa farta e confraternização. Os ditados populares já o anunciam: “No dia de São Martinho, pão, castanhas e vinho”.

É nessa época que o vinho novo, produzido no verão anterior, está pronto para ser provado — e que as castanhas, caídas dos ouriços (fruto do castanheiro) no fim de outubro, tornam-se as estrelas do cardápio.

Verão de São Martinho no Município de Oeiras em 2022. Na foto, a celebração da tradição do magusto reúne famílias e amigos em torno das brasas para assar castanhas. Crédito: site do Município de Oeiras.

A tradição do magusto — palavra que designa tanto a fogueira quanto a celebração — reúne famílias e amigos em torno das brasas. Castanhas assadas, jeropiga e água-pé aquecem a noite, enquanto se entoam canções e se contam histórias.

Há quem diga que o magusto tem raízes antigas, ligadas a rituais de homenagem aos mortos, quando as famílias preparavam castanhas e as deixavam sobre a mesa para os espíritos dos entes queridos.

A influência do calendário gregoriano também ajudou a fixar a data: quando Portugal adotou o novo sistema, em 1582, o antigo magusto de Todos os Santos — celebrado em 1º de novembro — foi transferido para o dia 11, coincidindo com a festa de São Martinho.

De norte a sul do país, novembro em Portugal é tempo de reencontro com o sol, com a mesa e com as histórias que atravessam séculos. E, como dizem os locais: “No dia de São Martinho, vai à adega e prova o vinho”.

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Fernanda Baldioti

Jornalista com mestrado em Comunicação Social pela Uerj e mais de 15 anos de experiência em redação e edição de reportagens. Já atuou no jornal “O Globo”, é sócia do #Colabora – Jornalismo Sustentável e repórter da edição brasileira do portal Fashion Network. Na EntreRios, é repórter com foco em comportamento e lifestyle.

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