“Vi a minha vida acabar”: brasileiras sobrevivem após vila de casas modulares ser destruída por tempestade em Portugal
Brasileiras perderam todos os bens após a força do vento destruir cinco casas onde viviam; em comum, o livramento, a solidariedade e o desafio de recomeçar
A madrugada da tempestade Kristin transformou em destroços uma pequena vila de cinco casas modulares em Pero Negro, no concelho do Sobral de Monte Abraço, distrito de Lisboa, — e mudou para sempre a vida de duas brasileiras que moravam ali.
Rayane Rocha, de 25 anos, e Carla de Amorim, de 31, que vivia com o marido e a filha, perderam tudo o que haviam conquistado no país. As casas foram levadas pela força do vento. Elas, por pouco, não tiveram o mesmo destino.
Rayane morava sozinha em uma das residências. No meio da madrugada, sem energia elétrica e em meio ao barulho ensurdecedor da tempestade, percebeu que não havia tempo para reagir.
“Eu gritava pedindo ajuda, mas o barulho era muito forte. Estava tudo escuro, não tinha luz”, relembra, em depoimento exclusivo à EntreRios.
Sem conseguir enxergar o que acontecia ao redor, saiu correndo, lutando contra o vento, em busca de socorro. Não olhou para trás. Só horas depois, com o dia claro, conseguiu entender que a casa onde vivia simplesmente não existia mais.
Uma rotina simples
As cinco casas modulares formavam uma pequena vila em Pero Negro. Ali viviam Rayane, Carla com a família, um casal de brasileiros e outras duas casas eram, cada uma, ocupadas por um senhor e uma senhora portugueses. As residências eram arrendadas e pertenciam ao mesmo senhorio.
Com exceção da casa da idosa — que foi apenas arrastada por poucos centímetros —, todas as outras foram afetadas em diferentes graus: a do senhor e a do casal de brasileiros teve os tetos arrancados, enquanto as de Rayane e Carla foram completamente arrastadas pela força dos ventos.
Antes da tragédia, a rotina era simples. Rayane havia conquistado recentemente a independência de morar sozinha. Trabalhava como operadora de abastecimento em um posto de combustível, em duas cidades, e descrevia a casa como o seu lar, organizado e acolhedor.

Carla, por sua vez, morava com o marido e a filha de 10 anos. A família havia emigrado de Breu Branco, no Pará, cerca de quatro anos antes, colocando “a vida numa mala”, como ela descreve, em busca de melhores condições. A casa era o espaço de segurança da família, o refúgio construído longe do país de origem.
A rotina era também simples e centrada na casa, e nos cuidados com a filha. Carla explica que, após um acidente ocorrido em 2024, estava afastada do trabalho e recebendo benefício social, dedicando-se principalmente à família.
“Eu vi a minha vida acabar”
Assim como Rayane, Carla viveu momentos de pânico semelhantes. Quando ouviu um estrondo, o primeiro pensamento foi na filha.
“Deu um estralo e eu lembrei da minha filha. Eu gritava: ‘minha filha, minha filha’”, conta.
Presa sob os escombros e desmaiada, ela diz que teve certeza de que estava diante da morte. A família conseguiu sair junta, mas a imagem da casa destruída marcou de forma definitiva.
“Eu vi a minha vida acabar”, afirma.

Ela sofreu uma fratura no dedão da mão direita e machucou a cabeça. O marido e a filha saíram sem ferimentos graves.
Rayane também foi arremessada junto com a estrutura da casa. Segundo ela, a força do vento a lançou a cerca de 20 metros, de onde conseguiu sair sozinha, em meio aos destroços.
O amanhecer e a dimensão da perda
Tanto Rayane quanto Carla só conseguiram compreender a dimensão da tragédia com o amanhecer. Durante a fuga, tudo estava escuro e nenhuma delas teve condições de avaliar o que havia acontecido.
Rayane encontrou a vizinha Carla também deixando os escombros. As duas perceberam, ali, que haviam perdido absolutamente tudo.
Nos dias seguintes, Rayane chegou a passar cerca de três dias usando apenas roupas emprestadas. Abalada emocionalmente, precisou se afastar do trabalho com uma baixa psicológica. Carla, igualmente sem casa, passou a depender da ajuda de amigos e da comunidade local.
Abrigos improvisados
Após a destruição, ambas foram acolhidas por uma família de amigos portugueses: uma casa que comportava um casal e três filhos agora abria as portas para receber mais quatro pessoas — Rayane, Carla, o marido e a filha.
Segundo elas, houve presença inicial de autoridades e promessas de apoio logo que amanheceu o dia da tragédia. Foi oferecido auxílio com alimentos e uma moradia de poucos dias em um abrigo. As mulheres, porém, recusaram e preferiram permanecer sob o teto da família portuguesa que já havia se disponibilizado a ajudar.
Com a repercussão do caso, a ajuda passou a vir principalmente da comunidade. Moradores da região doaram alimentos, roupas de cama e outros itens essenciais. Ao mesmo tempo, surgiram críticas nas redes sociais, com pessoas questionando a veracidade dos vídeos e relatos.
Rayane e Carla afirmam que, apesar dos comentários negativos, a maior parte das reações foi de solidariedade. No dia a dia, especialmente por trabalharem com atendimento ao público, passaram a ser reconhecidas nas ruas e abordadas por pessoas preocupadas com a situação.
Recomeçar do zero
Hoje, as duas brasileiras compartilham o mesmo desafio: recomeçar. As necessidades mais urgentes são financeiras, para conseguir alugar uma nova casa, pagar caução e renda, além de mobiliar um novo espaço.
Foi por isso que decidiram lançar uma campanha de financiamento coletivo para viabilizar o recomeço. A meta estabelecida é de 7 mil euros e, até agora, pouco mais de 6 mil euros já foram arrecadados.
As doações seguem abertas e podem ser feitas tanto do Brasil, via PIX, utilizando o e-mail Rayanerocha0740@icloud.com, quanto em Portugal, por meio do MbWay ou do Revolut, ambos associados ao número 920 061 387.
Apesar da perda total dos bens materiais, o sentimento predominante entre elas é o de gratidão por estarem vivas.
“Dinheiro nenhum no mundo compra a vida”, diz Rayane.
Carla reforça que a tragédia mudou a forma como enxerga a própria trajetória como imigrante.
“Eu estou muito mais forte agora. Sei que sou capaz de começar tudo de novo”, afirma.
Sem casa, sem pertences, mas com a vida preservada, Rayane e Carla agora tentam reconstruir, do zero, aquilo que o vento levou, sustentadas pela certeza de que sobreviver já foi a maior das conquistas.
flavio@revistaentrerios.sapo.pt
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