Ficção e realidade

Visual de “O Conto da Aia” vira símbolo de protestos contra política migratória nos EUA

Mulheres vestidas como “aias” denunciam mortes, abusos e o endurecimento das ações do ICE em manifestações recentes pelo país

Protesto no estado de Minnesota, em 2025. Reprodução: Instagram @handmaids_of_mn.

Milhares de pessoas voltaram às ruas de cidades norte-americanas nas últimas semanas para protestar contra a atuação do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE). Entre palavras de ordem, cartazes e vigílias silenciosas, uma imagem tem se destacado e circulado com força nas redes sociais e na imprensa internacional: mulheres vestidas com mantos vermelhos e capuzes brancos, reproduzindo o figurino das “aias” da distopia O Conto da Aia.

O visual, popularizado pelo livro de Margaret Atwood e pela série do Hulu, passou a ser incorporado aos atos como uma denúncia simbólica do que manifestantes classificam como práticas autoritárias e desumanizantes da política migratória do país.

A onda mais recente de protestos ganhou força após a morte da norte-americana Renee Nicole Good, de 37 anos, baleada por um agente do ICE em Minneapolis, no início de janeiro de 2026. O episódio gerou forte comoção e impulsionou manifestações em diversos estados, reunindo organizações de direitos civis, lideranças comunitárias e grupos religiosos.

Nesse contexto, o uso do traje das aias emergiu como um elemento visual de impacto, ganhando uma nova camada de significado: a luta contra os retrocessos democráticos e as violações de direitos humanos.

Uma semana após a morte de Renee, manifestantes se concentraram em frente a um escritório do ICE em Burlington, no estado de Massachusetts. Segundo o Lexington Observer, uma das figuras que mais chamaram a atenção no ato foi Michelle Rodriguez, que participou do protesto vestida como uma aia.

Em entrevista ao veículo, ela afirmou que o figurino lhe pareceu “adequado”, pois a situação atual lembraria o “roteiro” de uma teocracia totalitária — referência direta ao universo criado por Margaret. Michelle também relatou viver sob constante receio de que seus filhos, por terem sobrenomes e aparência latina, sejam detidos, mesmo sendo cidadãos norte-americanos. “É muito claro que o ICE não se importa se as pessoas são cidadãs”, declarou, expressando o temor de não saber onde os filhos poderiam estar em uma eventual abordagem.

Embora tenham ganhado novo fôlego recentemente, os protestos contra o ICE que utilizam a estética de O Conto da Aia não são inéditos. Em 2025, um ato silencioso organizado pelo grupo Illinois Democratic Women of Cook County reuniu mulheres vestidas com mantos vermelhos e capuzes brancos em frente a uma instalação da agência em Broadview, nos arredores de Chicago. A mobilização, noticiada pela emissora ABC 7 Chicago, teve como objetivo criticar as operações e práticas do órgão e se somou a manifestações semelhantes registradas em cidades como Washington, D.C.

Nos últimos meses, as críticas à atuação do ICE se intensificaram, impulsionadas tanto por mortes de civis em confrontos com agentes públicos quanto por questionamentos mais amplos às políticas migratórias do governo de Donald Trump. Nesse cenário, símbolos visuais de forte impacto passaram a ser utilizados como estratégia para ampliar a visibilidade das denúncias e sensibilizar a opinião pública.

O debate extrapolou as ruas. Na cerimônia do Grammy de 2026, artistas vencedores como Bad Bunny, Billie Eilish e Kehlani abordaram o tema em seus discursos de agradecimento, posicionando-se publicamente em defesa dos imigrantes e criticando a política migratória do governo norte-americano.

LEIA MAIS: Grammy 2026: artistas fazem discursos em apoio aos imigrantes durante a premiação

A adoção do traje das aias em manifestações não é casual. Ainda em 2017, mulheres já recorriam a esse visual em protestos performáticos contra legislações antiaborto no Capitólio do Texas. Com o sucesso da adaptação televisiva de The Handmaid’s Tale, as túnicas vermelhas e os capuzes brancos se consolidaram como um símbolo amplamente reconhecível de contestação política. A BBC chegou a definir a figura da aia como “um símbolo internacional de protesto” contra a opressão heteropatriarcal.

Desde então, essa imagem atravessou fronteiras. Mulheres vestidas como aias passaram a aparecer em manifestações na Irlanda do Norte, na Croácia, na Argentina e em outros países, sobretudo em atos ligados à defesa dos direitos reprodutivos. No Brasil, o traje foi visto pela primeira vez em 2018, durante audiências públicas no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a descriminalização do aborto. Mais recentemente, em 2024, voltou às ruas em protestos contra o Projeto de Lei 1904/24, que equiparava o aborto após a 22ª semana ao crime de homicídio simples, afetando principalmente meninas vítimas de violência sexual.

Na Argentina, antes da legalização do aborto até a 14ª semana, em 2020, mulheres enfrentaram a rejeição inicial do Senado, então majoritariamente conservador. Além dos lenços verdes — símbolo nacional da luta pelo aborto legal —, os trajes de aia também foram incorporados às manifestações, reforçando o caráter transnacional da estética inspirada na obra de Atwood.

Qual a história do livro O Conto da Aia?

Publicado em 1985, O Conto da Aia retrata um futuro distópico no qual grande parte dos Estados Unidos é transformada na República de Gilead, uma ditadura teocrática instaurada após o assassinato do presidente e a tomada do poder por uma facção fundamentalista. No novo regime, a imprensa é fechada, as fronteiras são isoladas e a circulação de livros, jornais e filmes é proibida. Em meio a uma grave crise de fertilidade, associada à poluição e às mudanças climáticas, mulheres férteis passam a ser forçadas a servir como “aias”, destinadas a gerar filhos para a elite governante.

O Conto da Aia. Crédito: Divulgação
O Conto da Aia. Crédito: Divulgação

Privadas de direitos básicos, identidade e autonomia, essas mulheres são submetidas a rituais de estupro institucionalizados e têm até seus nomes apagados, substituídos por designações que indicam posse. É o caso da protagonista June Osborne, que passa a ser chamada de Offred — “de Fred” —, por “pertencer” ao comandante da família à qual é designada. Nesse contexto, o uniforme vermelho e branco funciona, dentro da narrativa, como um símbolo máximo de submissão e de controle absoluto sobre os corpos femininos.

fernanda@revistaentrerios.sapo.pt

Fernanda Baldioti

Jornalista com mestrado em Comunicação Social pela Uerj e mais de 15 anos de experiência em redação e edição de reportagens. Já atuou no jornal “O Globo”, é sócia do #Colabora – Jornalismo Sustentável e repórter da edição brasileira do portal Fashion Network. Na EntreRios, é repórter com foco em comportamento e lifestyle.

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